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O que está acontecendo com a água no RJ?

No diagnóstico publicado em dezembro 2019 pelo Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), o estado do Rio de Janeiro é o que possui a maior média de consumo de água, 254,9 l/hab/dia (litros por habitante por dia) enquanto a média nacional é de 154,9 l/hab/dia o que corresponde a 64,6% a mais no consumo de água.

Historicamente o Rio de Janeiro sempre foi um grande consumidor de água, o que tornou necessária a construção de uma grande estação de tratamento de água (ETA) no ano de 1955, sendo abastecida pelo rio Guandu, e que foi passando por sucessivas ampliações e melhorias técnicas que permitem hoje uma vazão de 43 mil litros por segundo, suficiente para abastecer uma população de 9 milhões de pessoas na região metropolitana. A ETA Guandu foi incluída no Guinness Book, O Livro dos Recordes, como a maior estação de tratamento de água do mundo em produção contínua.

Por ser responsável pelo abastecimento da Região Metropolitana do Rio de Janeiro (RMRJ), qualquer problema no tratamento da água afetaria os 9 milhões de habitantes dessa região, que estão divididos entre 8 cidades, sendo elas Nilópolis, Nova Iguaçu, Duque de Caxias, Belford Roxo, São João de Meriti, Itaguaí, Queimados e Rio de Janeiro. E é exatamente o que está acontecendo no mês de janeiro de 2020.

Moradores começaram a observar que a água saindo das torneiras estava turva, com gosto e cheiro de terra. Após reclamações, os técnicos da Companhia Estadual de Águas e Esgotos (CEDAE) detectaram a presença da substância Geosmina em amostras de água. A geosmina não é tóxica, mas pode indicar problemas na qualidade da água bruta utilizada para o abastecimento.

A geosmina é um composto orgânico volátil, é produzida por algumas bactérias heterotróficas ou cianobactérias, que crescem em abundância em ambientes aquáticos com altas concentrações de nutrientes, especialmente em mananciais que recebem esgotos não tratados. Segundo um relatório publicado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), esses microrganismos podem produzir algumas toxinas muito potentes (cianotoxinas), que precisam ser removidas durante o tratamento da água para não comprometer a saúde da população.

Há limites máximos aceitáveis dessas toxinas para que a água possa ser considerada potável. Os dados divulgados pela CEDAE mostram que nas amostras analisadas esses limites estão sendo respeitados.

A atual crise que vive a RMRJ é decorrente da insuficiência do sistema de esgotamento sanitário das áreas urbanas. Como resultado, esgotos sanitários em estado bruto, ou seja, desprovidos de qualquer tratamento, são despejados nos Rios dos Poços, Queimados e Ipiranga, todos afluentes do rio Guandu, a menos de 50 metros da barragem principal e da estrutura de captação de água do sistema produtor. Para o professor da UFRJ, Isaac Volschan, essa é a maior crise ambiental do estado do RJ.

Em caráter emergencial, outras alternativas de tratamento da água também devem ser consideradas propondo-se a utilização de medidas corretivas, como oxidação avançada ou adsorção com carvão ativado. Isso tem sido anunciado pela CEDAE, entretanto, destaca-se a urgência na implementação. Para uma solução definitiva, o sistema de tratamento de água deve ser modernizado a longo prazo, incluindo tecnologias mais avançadas.

Durante uma coletiva de imprensa no dia 15 de Janeiro, Hélio Cabral, o presidente da CEDAE, fez a seguinte afirmação “A geosmina vai acontecer. Pode ser daqui a três meses, daqui a um ano. Mas a gente vai estar sempre preparado para não acontecer mais a água com cheiro de terra ou gosto de terra”, e ainda relembrou a compra do carvão ativado como método de tratamento para a água ficar sem odor e sabor.

Por outro lado, o engenheiro químico, Gandhi Giordano, contesta a solução para o problema apresentada "No momento, é necessário um programa completo de tratamento do manancial. Filtros de carvão são meros paliativos. Eles podem atenuar, deixar a água com uma aparência melhor, mas não resolvem a causa desta contaminação", afirma. O biólogo Mário Moscatelli também afirma que o uso de carvão pode melhorar a qualidade da água momentaneamente, mas que o problema pode se tornar ainda maior em breve. "É apenas uma questão de tempo para que os lançamentos de esgoto se tornem tão massivos a ponto de nem a estação de tratamento do Guandu dar conta do recado", diz. "A água que chega neste momento ao consumidor deve ser tratada, é claro. Mas o tratamento que resolve o problema é outro e passa pela questão social."

A opinião dos dois vai ao encontro do posicionamento da UFRJ, no que diz respeito às eventuais estratégias para a solução do problema. "Enquanto a recuperação adequada dos recursos hídricos utilizados para abastecimento público não for feita, a perspectiva de recorrência de crises semelhantes num futuro próximo é bastante provável", diz a instituição.

Casos semelhantes já ocorreram no Rio de Janeiro 18 anos atrás; em São Paulo, em 2008, e em municípios dos estados da Paraíba e do Rio Grande do Sul em 2018, por exemplo.


Autora: Beatriz G. Ziliotto

(18) 3229-5412 

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